Não é por
acaso que “aterramento elétrico” é um tema recorrente. Há alguns dias, após
iniciar um curso para aproximadamente 30 engenheiros, constatei que muitos
deles continuavam a ter como referência, quase que tatuada em suas mentes, o
conceito de separação dos eletrodos de aterramento das instalações de energia,
de sinal e do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA), em uma
mesma edificação.
Seja por exigência absurda de um fabricante que
alega não dar garantia ao equipamento fornecido se ele não possuir o seu eletrodo exclusivo, com “x” Ohms de resistência elétrica, seja por
falta de acesso à informação, a ideia de que eletrodo de aterramento deve ser
único para a edificação e servir a todas as instalações elétricas (energia,
sinal e SPDA) existentes continua obscura perante grande parte da comunidade
técnica nacional.
O problema
é tão contundente e mal interpretado que basta surgir algum evento que
movimente a mídia, ainda que sem relação direta com o assunto, para começarem
as especulações. Com relação ao padrão brasileiro de tomadas que consta da ABNT
NBR 14136:2002 (versão corrigida em 2008) – Plugues e tomadas para uso
doméstico e análogo até 20 A/250 V em corrente alternada – Padronização,
cheguei a ouvir o seguinte disparate: “Está vendo? Agora é obrigatório ter um
aterramento exclusivo para cada tomada”, como se todos os formatos existentes
até hoje que já possuíssem três pinos tivessem nesse terceiro pino um objeto de
adorno ou um “pino guia” para facilitar o encaixe dos demais.
Eletrodo de
aterramento é, por definição, uma parte da instalação elétrica que fica enterrada
e, portanto, não tem influência direta no terceiro pino da tomada, seja qual
for o padrão utilizado.
As normas
ABNT NBR 5410:2004, versão corrigida em 2008, a ABNT NBR 5419:2005, atualmente
em revisão, a ABNT NBR 14039:2005 e a ABNT NBR 15751:2009 definem os termos
eletrodo de aterramento, sistema de aterramento, condutor de proteção (PE),
condutor e barramento de equipotencialização, bem como a forma correta de suas
aplicações.
Conhecendo
as informações contidas nessas normas, consideremos como exemplo um eletrodo de
aterramento de um prédio comercial de 15 andares, com 20 m de largura e 50 m de
comprimento. Se o eletrodo de aterramento projetado for constituído por um
condutor de cobre, este deve seguir as seguintes condições mínimas:
·
ter seção transversal igual a 50 mm²;
·
circundar toda a edificação na forma de um anel
fechado, preferencialmente se distanciado da mesma de 1 m a 1,5 m;
·
estar enterrado, no mínimo, a 0,5 m de
profundidade;
A este
eletrodo devem estar convenientemente conectados todos os componentes das
instalações elétricas (energia, voz, dados, TV, etc.), os elementos metálicos
que adentrem o prédio (blindagens, tubos metálicos, etc.) e as descidas do
SPDA.
O segredo
não está na separação dos eletrodos para o aterramento de cada componente, mas
na forma como todos os componentes devem ser conectados a esse eletrodo único.
O ponto principal de conexão deve ser, em primeira instância, o Barramento de
Equipotencialização Principal (BEP), ou as demais denominações dadas a essa
peça, cuja correta forma de localização e utilização pode ser encontrada nas
normas já citadas.
Dessa
maneira, podemos afirmar que é tão absurda a separação do eletrodo de
aterramento em uma mesma edificação quanto a interligação direta entre a
armadura estrutural do pilar e o terceiro pino da tomada de energia, por
exemplo, no décimo andar do edifício. Afinal, acredita-se que ninguém em sã
consciência queira seu equipamento energizado com correntes impulsivas quando
ocorrer uma descarga atmosférica, correto? A maior certeza nisso tudo é que, de
formas diferentes, acontecerá exatamente isso nos dois casos! O maior risco é o
da desinformação.
Escrito por: Jobson
Modena
ATITUDE EDITORIAL
Edição 50, Março de
2010
Publicado
inicialmente em:
PORTAL O SETOR ELÉTRICO